Ao leste o sol dava-me bom dia, seus raios aqueciam-me na fria manhã. Encostei-me na mureta da varanda. A beleza da cidade à disposição, a brisa delicada e nostálgica contra
meu rosto, e o silêncio peculiar da solidão; faziam-me companhia no amanhecer mais intimo e egocêntrico. À proporção que o sol alcançava o alto, ancorava-me nos meus vinte e um anos, na minha nova condição de naufrago. Amarrei o roupão, deixei a manhã para trás, mirei a ilha, adversa ao arquipélago que até ontem habitei. Os rumores soavam distantes, as conversas que ouvia eram pessoais e intransferíveis. Talvez não fosse a maior catástrofe, se eu me permitisse sobreviver, se eu preenchesse o vazio de lembranças, se eu acreditasse que fiz o certo para encontrar as respostas que na turbulência não me eram fornecidas. O pássaro havia descoberto que podia voar e construir seu próprio ninho. Mas tudo era estranho, ainda que gritasse dentro de mim um desejo de viver-me. Faltavam as reclamações amigas de minha mãe, as poucas e sábias palavras do meu pai, as confidências e brincadeiras com os irmãos, até o miado do gato que tanto desprezava. Com quem sentaria na cama assim que acordasse e delataria um sonho meu ou de quem reclamaria pelo uso da toalha, quem me diria que a comida estava ótima ou que exagerei no sal, a quem perguntaria se a roupa ficou bem ao sair com as amigas. Já não marcariam as horas pra voltar pra casa, nem me proibiriam de juntar a galera e fazer a festa. O computador poderia ficar ligado até altas horas; a conta do telefone viria com pulsos gastos a mais, lógico que o valor também excederia. De repente joguei-me sobre o sofá, gargalhei. É. Moro sozinha agora e se continuasse incrédula teria me atrasado para o trabalho. Já sou adulta, disse comigo. Que palavra pesada e difícil de ser pronunciada.
meu rosto, e o silêncio peculiar da solidão; faziam-me companhia no amanhecer mais intimo e egocêntrico. À proporção que o sol alcançava o alto, ancorava-me nos meus vinte e um anos, na minha nova condição de naufrago. Amarrei o roupão, deixei a manhã para trás, mirei a ilha, adversa ao arquipélago que até ontem habitei. Os rumores soavam distantes, as conversas que ouvia eram pessoais e intransferíveis. Talvez não fosse a maior catástrofe, se eu me permitisse sobreviver, se eu preenchesse o vazio de lembranças, se eu acreditasse que fiz o certo para encontrar as respostas que na turbulência não me eram fornecidas. O pássaro havia descoberto que podia voar e construir seu próprio ninho. Mas tudo era estranho, ainda que gritasse dentro de mim um desejo de viver-me. Faltavam as reclamações amigas de minha mãe, as poucas e sábias palavras do meu pai, as confidências e brincadeiras com os irmãos, até o miado do gato que tanto desprezava. Com quem sentaria na cama assim que acordasse e delataria um sonho meu ou de quem reclamaria pelo uso da toalha, quem me diria que a comida estava ótima ou que exagerei no sal, a quem perguntaria se a roupa ficou bem ao sair com as amigas. Já não marcariam as horas pra voltar pra casa, nem me proibiriam de juntar a galera e fazer a festa. O computador poderia ficar ligado até altas horas; a conta do telefone viria com pulsos gastos a mais, lógico que o valor também excederia. De repente joguei-me sobre o sofá, gargalhei. É. Moro sozinha agora e se continuasse incrédula teria me atrasado para o trabalho. Já sou adulta, disse comigo. Que palavra pesada e difícil de ser pronunciada.
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